Naldinho LourençoFoto:Naldinho Lourenço

A realidade vivenciada por milhões de pessoas instaladas em áreas de risco social é cada vez mais dura de se encarar. Dura por diversos motivos e para todos os lados. Todo mundo em estado de susto constante. De um lado a Comunidade, refém do caos social alimentado pela falta de ação do Governo. Do outro, a força policial que faz frente a esse caos.

A singularidade é: quem tem mais medo de quem? Os moradores se escondem das chuvas de balas trocadas entre policiais e bandidos. Estes que um dia foram crianças como o pequeno Matheus, que teve sua vida ceifada sem chances de argumento. O menino Matheus Rodrigues Carvalho foi vitima da ausência do Estado e desse medo constante. Essa doença urbana que assola o Rio de Janeiro.

Ao abrir o portão de casa, o menino, segundo relatos dos moradores vizinhos e familiares, foi alvejado com um tiro. De acordo com a população local que acompanhou a tragédia no calor do seu desenrolar, a polícia ainda tentou retirar o corpo do local, mas os mesmos os impediram.

A seqüência de erros é chocante desde sua raiz. Famílias pobres moradoras de zonas classificadas como de risco devido à sua condição de “abrigo” do poder paralelo do tráfico de drogas, precisam trabalhar para sobreviver e na maioria das vezes têm de deixar seus filhos ainda pequenos sozinhos ou com vizinhos, parentes e conhecidos.

A ausência dos pais no crescimento dos filhos, ou até mesmo a criação destes em famílias desestruturadas é a oportunidade de ouro para que menores de idade caiam na ilusão da vida fácil do crime. Que de antemão, pode se dizer que não é fácil, nem segura.

Os únicos destinos a que leva esse caminho começam coincidentemente com C, a cova (que na maioria das vezes é a rasa devido à condição sócio-econômica) e a cadeia, que também temos de concordar que não é o melhor lugar do mundo. É mais do que sabida as falhas do sistema prisional brasileiro. Piada, querer acreditar que esse local muda alguém para melhor.

Ausência do Estado em mais investimentos no treinamento de nossos policiais, em dar melhores condições dignas salariais a eles de forma que não precisem ir a exaustão de tanto trabalho particular. O que acarreta um nível de tensão ainda maior do que o medo de entrar em uma comunidade não sair, deixando seus familiares desamparados.

Ausência do Estado em garantir um sistema educacional de qualidade, onde todos tenham acesso não só a educação básica, mas a cultura de modo geral, que amplie os horizontes das crianças e que qualifique esses jovens para competir futuramente no mercado de trabalho. Que tenham capacidade de entrar em uma universidade, que tenham possibilidade de mudar seus destinos para melhor. Sair da invisibilidade.

Amanhã (11/12/2008) faz uma semana que morreu Matheus Rodrigues Carvalho. Um pequeno cidadão com nome e sobrenome, que fazia parte de projetos culturais realizados por Instituições do terceiro setor na Maré. Alguém que, ao que tudo indica, buscava algo mais, além das possibilidades oferecidas pelo nosso magnânimo Estado.

Lamentável tudo isso. Lamentável saber que o Matheus por ser filho de pessoas pobres não seja motivo de alarde social. Só porque vivem em um local onde infelizmente a generalização toma conta da consciência coletiva, taxando todo morador de Comunidade como marginal ou conivente com a criminalidade. Uma semana após o reprovável fato, ninguém lembra do que acontecido.

Fosse um filho da Zona Sul ou até mesmo da Tijuca ou Barra, ou qualquer outro pedaço chão nobre pelo dinheiro que sustenta, renderia matérias e muitos dias de falação. Em alguns casos até meses. Só os ricos são vítimas da violência que neste caso é hiper bábara? Mas e quem é o Matheus? Quem é a família do Matheus? A dor deles, quanto vale? O quanto possui ao menos é que parece diante de toda falta de comoção.

Matheus, assim como a Isabela Nardoni, o João Hélio, a Gabriela da Estação do Metrô São Francisco Xavier, entre outros mais, também é uma criança com sonhos, com fome de vida, que gosta de brincar com os amiguinhos, que também acredita em Papai Noel (essa fábula comercial), coelhinho da páscoa. Que também espera brinquedo no dia das crianças e que acima de tudo tem pais que o amam e que queriam o seu bem.

Portanto, o que fica é a idéia da velha conhecida polaridade entre ricos x pobres. Você vale sim, pelo quanto você pode pagar. Se morre um filho da “socialite” é injustiça ele tinha um futuro e etc, etc, etc. Mas se é pobre, que diferença faz, o destino daquele já se especula que não seria dos melhores, mesmo. Para que se importar.

E pensar que podia ter sido eu aos 8 anos. Já pensou?! Cresci em comunidade, morei 19 anos dentro de uma, já vi muito tiroteio – razão pela qual hoje eu e minha família nos mudamos. Graças a Deus tivemos condições para – soube de muita gente morta nestes tiroteios. Mas nem por isso, deixei de me formar em comunicação, ser honesta e trabalhadora e hoje freqüentar ambientes diferentes do qual eu nasci.

No fim das contas, tudo termina como começou, baseado na injustiça e o Matheus que poderia lutar por um futuro melhor, acabou virando “só mais um Silva” na lista de crianças e pessoas mortas na guerra civil instalada na grande Cidade Maravilhosa.

Viva o Rio!!!

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